Onipresente, já todos vivemos aquele momento em que uma criança nos olha com uma franqueza crua, quase cortante.
Nessa noite, na cozinha ainda desarrumada, uma mãe levantou a voz por uma ninharia e, depois, viu o olhar do filho mudar. Menos admiração, mais distância. Ele não disse nada. Apenas arrumou a tigela, devagar, como se também estivesse a arrumar uma parte da sua confiança.
Cenas assim não fazem manchetes. Escorregam para dentro das rotinas, entre um e-mail urgente, um trabalho de matemática e um episódio de desenhos animados. Prometemos fazer melhor, mais tarde. Dizemos a nós próprios que as crianças vão compreender.
Mas os hábitos deixam marcas. Alguns, por se repetirem, envenenam aos poucos o respeito que uma criança tem pelos pais. E um dia, descobrimos que algo se partiu.
1. O hábito de gritar por tudo e por nada
O volume sobe antes mesmo de existirem palavras. Os sapatos ficam pelo chão, os trabalhos não estão feitos, o prato continua cheio, e a voz sai sozinha, como um reflexo. No início, as crianças sobressaltam-se. Depois habituam-se. O grito já não surpreende, cansa. Torna-se o ruído de fundo da casa, como uma ventoinha demasiado velha.
O inquietante é que muitos pais juram que “não gritam assim tanto”. O cérebro apaga os episódios desconfortáveis. A criança, essa, guarda-os um a um. O hábito de gritar acaba por criar uma espécie de muro sonoro entre gerações. Achamos que estamos a impor autoridade, mas sobretudo criamos distância.
Estudos sobre parentalidade mostram que crianças expostas frequentemente a gritos desenvolvem menos cooperação espontânea. Obedecem por medo a curto prazo, não por respeito a longo prazo. É lógico: quando qualquer deslize acaba numa explosão, a criança não procura compreender; procura evitar. O respeito raramente se constrói num campo minado emocional. A certa altura, a criança aprende a fechar a porta… e depois o coração.
2. Rebaixar e comparar “para os motivar”
“Olha para a tua irmã: ela, ao menos, estuda.”
“Francamente, na tua idade eu fazia muito melhor.”
Estas frases saem muitas vezes sem premeditação, atiradas como uma ponta de ironia ou de desalento. Ferem depressa, com força, e por muito tempo. Uma criança comparada constantemente acaba por se perguntar quem é, de facto, fora da sombra dos outros.
Em muitas famílias, a comparação é quase um reflexo cultural. Pensa-se que se está a puxar a criança para cima, a acordar uma espécie de orgulho. O que se acorda, muitas vezes, é a vergonha. A irmã torna-se uma rival, o primo um juiz silencioso, os “filhos dos outros” um padrão impossível. A criança percebe cedo a mensagem implícita: o que tu és não chega.
Com o tempo, este tipo de discurso abre uma fissura no respeito mútuo. A criança deixa de se atrever a mostrar vulnerabilidade por medo de ser humilhada. Começa a filtrar o que conta, a esconder falhas, a maquilhar notas. Como respeitar um pai ou uma mãe que transforma cada fraqueza numa arma verbal? Na adolescência, esta ferida traduz-se muitas vezes em respostas secas, olhares negros, silêncios gelados. A comparação, repetida, torna-se uma forma de traição afectiva.
3. Nunca pedir desculpa, mesmo quando se está claramente errado
Há esta cena banal: um pai acusa a filha de ter partido o comando da televisão. Fica zangado, fala depressa demais, repreende-a, tira-lhe o ecrã. Uma hora depois, encontra o comando intacto debaixo do sofá. Percebe que se enganou, que foi injusto. Sente um ligeiro aperto no coração… e passa à frente, na esperança de que o incidente se apague sozinho.
➡️ Esqueça a máquina de lavar loiça: esta mistura natural faz os copos brilharem como num restaurante
➡️ Este truque pouco conhecido de chefs estrelados faz panelas de cobre brilharem sem as danificar
➡️ A psicologia diz que as pessoas que interrompem constantemente conversas têm estas 7 características subjacentes
➡️ Higiene após os 65: nem uma vez por dia, nem uma vez por semana - eis a frequência de banho que o mantém bem
➡️ O seu cabelo está a sofrer: dermatologista critica hábitos populares de lavagem como um grande erro
➡️ O dia vai tornar-se noite: astrónomos confirmam oficialmente a data do eclipse solar mais longo do século, um evento raro que deverá criar um espectáculo extraordinário em várias regiões
➡️ Melhor do que um ambientador: o método dos taxistas para manter o habitáculo sempre fresco
➡️ Este truque de chef recupera uma panela queimada sem esforço
Para a criança, isto não é um detalhe. Ela viveu uma injustiça clara, sem reparação. Engoliu em seco. Percebeu que o adulto fica sempre com a última palavra, mesmo quando está errado. A partir daí, o estatuto de “figura de respeito” estala. Quem nunca reconhece os próprios erros acaba por perder credibilidade, mesmo aos olhos de uma criança de oito anos.
Dizer “enganei-me, desculpa” não faz perder a face - faz ganhá-la. Mostra que a autoridade não é incompatível com a humildade. As crianças observam muito mais o que fazemos do que o que dizemos. Um pai ou mãe que pede desculpa ensina que o erro faz parte da vida e que repará-lo faz parte do respeito. Pelo contrário, recusar reconhecer falhas instala um poder rígido, frágil, que o adolescente muitas vezes acabará por rejeitar de forma brusca.
4. Controlar em vez de ouvir
A agenda das crianças parece por vezes um Excel vivo: piano, desporto, trabalhos, banho, deitar. Os pais correm atrás, cronómetro invisível na mão. Tudo é pensado, organizado, calibrado. Decide-se por elas o que gostam, o que é “bom para o futuro”, quem devem ver. No meio de tanta gestão, esquece-se uma pergunta simples: “E tu, o que achas?”
Neste modo de “piloto automático”, a criança torna-se um projecto a optimizar. Já não tem propriamente o direito de ser apenas… ela mesma. Alguns pais acabam por falar com o filho como se fosse um processo para fechar: notas, comportamento, resultados. O espaço das emoções reduz-se a frases rápidas no carro, entre duas actividades. A criança sente que a opinião dela conta pouco. Executa; não participa.
Respeitar um pai ou uma mãe não é só obedecer; é sentir-se reconhecido por ele. Quando uma criança nunca tem voz, aprende que o que sente vale pouco. Mais tarde, imitará esse modelo com os outros… ou rebelar-se-á com violência. Um diálogo real implica um risco: o de ouvir o que não nos convém. Mas é aí que a confiança se constrói, tijolo a tijolo, noite após noite, em conversas que dão trabalho e não cabem em quadrículas.
5. Dizer uma coisa e fazer outra
Na mesa há legumes que a criança tem de comer “porque é saudável”. No sofá, um dos pais está há vinte minutos a fazer scroll no telemóvel depois de repetir “os ecrãs fazem mal, limita-te”. A mensagem é clara, mesmo sem ser dita: as regras são para ti, não para mim. Este duplo critério corrói rapidamente o respeito.
As crianças têm um radar infalível para incoerências. Vêem perfeitamente o pai ou a mãe que fala de calma e empatia e se irrita por tudo e por nada ao volante. Ouvem o discurso sobre honestidade enquanto, num telefonema, se mente a um colega “para desenrascar”. No momento, não dizem nada. Mas a imagem de autoridade moral fica desfocada.
Um pai ou mãe que prega algo que nunca pratica ensina, sem querer, duas coisas: 1) as regras são negociáveis; 2) o adulto não é realmente fiável. A longo prazo, a criança respeitará mais facilmente o professor que encarna aquilo que diz, ou o treinador que aparece todos os sábados, do que o pai ou mãe cujo discurso não bate certo com os actos. Sejamos honestos: ninguém faz isto na perfeição todos os dias. A ideia não é ser perfeito, mas ser coerente o suficiente para que a criança sinta uma linha orientadora real, e não apenas slogans educativos.
6. As pequenas mentiras “para o bem deles”
“Volto já, em cinco minutos, prometo.”
“Não, isso não dói, não vais sentir nada.”
“Logo amanhã vemos isso”, quando já sabe que vai ser não.
No momento, estas frases parecem práticas. Evitam um drama, uma birra, uma conversa cansativa. Saem depressa, como pequenos pensos rápidos sobre a realidade.
O problema é que as crianças contam o tempo. Lembram-se das promessas. Ligam o que se diz ao que acontece. Quando os “cinco minutos” viram meia hora, quando o “amanhã” nunca chega, registam sobretudo isto: as palavras do pai ou da mãe devem ser tomadas com cautela. E um dia, quando o adulto quiser falar de assuntos sérios, a criança ouvirá com desconfiança.
O respeito assenta numa confiança básica: aquilo que me dizes corresponde, no geral, à realidade. Claro que alguns temas exigem adaptar a linguagem à idade. Mas entre adaptar e manipular, a fronteira é fina. Dizer “vai picar um bocadinho e eu fico contigo” vale mil vezes mais do que “não vais sentir nada” seguido de uma dor brutal. A verdade, trazida com delicadeza, constrói uma coluna vertebral relacional. A mentira “prática” fragiliza-a a cada utilização.
7. Minimizar as emoções deles para despachar
Uma criança chora por um brinquedo partido, por um amigo que já não quer brincar, por um comentário na escola. O adulto suspira, já com pressa: “Isso não é nada”, “Estás a exagerar”, “Vá, pára de fazer fita”. A cena dura dois minutos, no máximo. Mas para o cérebro da criança é uma mensagem forte: o que sentes não tem valor aqui.
As emoções das crianças parecem por vezes desproporcionadas. Ocupam tudo, no pior momento. Um casaco esquecido provoca uma crise, um gelado derramado desencadeia um rio de lágrimas. O adulto, cansado do próprio dia, corta. Quer que acabe depressa, que volte “ao normal”. A criança aprende então a reprimir ou a amplificar - nunca a regular.
A longo prazo, uma criança cujas emoções são constantemente minimizadas terá duas opções: apagar-se ou gritar mais alto. Em ambos os casos, o vínculo degrada-se. Respeitar um pai ou uma mãe é também sentir-se acolhido com o próprio caos interior. Quando um adulto tira 60 segundos para dizer “Estás mesmo triste, não estás? Conta-me”, não está a ceder. Está a dizer: o que estás a viver existe, e eu levo-te a sério. Este gesto simples muda a memória emocional de uma infância.
8. Nunca mostrar a própria vulnerabilidade
Alguns pais acham que o seu papel é ser rochas. Sólidos, inflexíveis, nunca cansados, nunca ultrapassados. Não falam dos seus medos, nem das suas dúvidas, nem dos seus dias terríveis. Guardam tudo para si, para “proteger” os filhos. A casa torna-se um palco onde o adulto interpreta o super-herói, mesmo quando o fato está a rebentar por todos os lados.
A curto prazo, dá a ilusão de segurança total. A longo prazo, a criança cresce com um modelo inalcançável. Sente-se fraca sempre que atravessa um momento difícil. E não tem com quem falar a sério, porque aqui nunca se fala de momentos difíceis. O respeito transforma-se então em distância respeitosa: admira-se de longe, mas não se confia.
Mostrar vulnerabilidade não significa pôr em cima da criança o peso das preocupações de adultos. É dizer, por exemplo: “Hoje tive um dia complicado, estou um bocado em tensão, não é por tua causa.” É reconhecer: “Quando eu era adolescente, também me custou encontrar o meu lugar.” É admitir: “Não sei bem como lidar com isto, vamos procurar juntos.”
“As crianças não precisam de pais perfeitos. Precisam de pais verdadeiros.”
E isso muda tudo na forma como nos olham.
- Evitar gritos sistemáticos propondo a si próprio um “tempo de pausa” antes de reagir.
- Substituir comparações por observações específicas e benevolentes.
- Criar o hábito de voltar a falar com a criança depois de um conflito para clarificar, pedir desculpa se for preciso e ouvir o que ela sentiu.
E agora, o que é que queres transmitir, a sério?
A maioria destes hábitos parecem coisas pequenas. Uma frase dita depressa demais. Um grito a mais. Uma mentira “para dar jeito”. Numa semana, dizemos que está tudo bem. Em dez anos, isto desenha uma forma de amar. E mais cedo ou mais tarde, as crianças, já crescidas, vão ligar os pontos. Saberão se, por trás dos discursos, havia respeito por elas.
O que abala é que muitos destes venenos do quotidiano vêm das nossas próprias infâncias. Às vezes repetimos exactamente o que detestámos, só porque não conhecemos outro modelo. A boa notícia é que um hábito muda. Não de um dia para o outro, nem com grandes resoluções, mas nesses micro-momentos em que escolhemos ouvir em vez de controlar, dizer a verdade em vez da pequena mentira conveniente.
As crianças não esperam pais perfeitos. Vêem muito bem os falhanços, as contradições, as noites em que tudo corre mal. O que elas procuram, em silêncio, é a nossa capacidade de evoluir diante delas. De dizer “aí, não fiz bem”, de tentar outro caminho na vez seguinte. Esses gestos, repetidos, constroem outro tipo de respeito: não o que se impõe, mas o que se conquista.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Substituir o controlo pela escuta | Fazer perguntas abertas, deixar a criança expressar a sua opinião mesmo que seja diferente | Favorece um respeito baseado na confiança e não no medo |
| Reparar após os erros | Pedir desculpa, explicar a emoção, reconhecer a injustiça quando ela existe | Dá o exemplo de uma responsabilidade emocional saudável |
| Alinhar palavras e actos | Reduzir duplos critérios, cumprir promessas ou reajustá-las explicitamente | Reforça a ideia de que o pai/mãe é fiável e digno de respeito |
FAQ:
- E se eu já “envenenei” a relação, é tarde demais? Não. As crianças estão muitas vezes mais abertas à mudança do que pensamos. Começar por reconhecer honestamente alguns hábitos e dizer que quer fazer diferente já pode criar um ponto de viragem.
- Como reagir quando eu ainda grito, apesar da minha boa vontade? Depois, volte a falar com a criança. Explique que passou dos limites, nomeie a sua emoção e conversem sobre o que poderia ter acontecido de outra forma. Este “debrief” vale quase tanto quanto a calma inicial.
- Tenho de contar tudo ao meu filho para ser vulnerável? Não. Vulnerabilidade não é despejar. Trata-se de partilhar algumas emoções e limites, à escala da criança, sem a carregar com os seus problemas de adulto.
- Como parar com comparações se cresci com isso? Substitua-as por descrições precisas: “Perseveraste mesmo neste trabalho” em vez de “És como o teu primo”. Exige algum treino, mas o cérebro habitua-se.
- O que fazer se o meu parceiro/a não mudar hábitos? Comece por mudar os seus. Fale do assunto em privado, nunca à frente da criança. As crianças reparam no esforço, mesmo que venha só de um dos pais, e isso já pode transformar grande parte da dinâmica familiar.
Comentários (0)
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário