On repara raramente no momento exacto em que uma existência muda de rumo.
Muitas vezes, acontece numa cozinha, entre uma chávena de café morno e uma janela que dá para um céu cinzento. Uma frase dita em voz baixa, quase para si: “Para quê, agora?”. O tom mudou, como se a vida já se estivesse a jogar noutro lugar, num passado acabado ou num futuro que não chegará.
Não é apenas uma questão de idade. Nem de reforma, nem de saúde frágil. É um deslizamento interior que os psicólogos vêem voltar, uma e outra vez, em pessoas que por vezes nem sequer têm 40 anos.
Um psicólogo afirma-o sem rodeios: a última etapa da vida começa muito antes da morte física, no momento em que se começa a pensar de uma determinada forma. E essa forma de pensar reconhece-se depressa.
A frase subtil que assinala a “etapa final”
O psicólogo americano Erik Erikson falava já de um momento-chave: aquele em que um ser humano olha para a sua vida como um balanço contabilístico. O que conseguiu. O que falhou. O que “devia” ter acontecido. No seu consultório, o psicólogo que entrevistámos ouve sempre a mesma forma de frase: “Agora é tarde demais para mim”. É esta pequena frase que, para ele, marca o início da última etapa psicológica de uma vida.
Ela surge em mil versões: “Agora já não vou mudar”, “Eu sou assim e pronto”, “Pessoas da minha idade não fazem isso”. E sobretudo: “Isso é para os mais novos”. Quando alguém começa a pensar como se tudo o que importa já estivesse atrás de si, algo se fecha. O futuro torna-se uma zona difusa, quase decorativa. Vive-se, mas já não se faz verdadeiramente um projecto.
Todos já vivemos aquele momento em que um familiar de quem gostamos começa a dizer “vais perceber quando fores mais velho”, com uma mistura de cansaço e resignação. Às vezes tem graça. Às vezes é apenas triste. O psicólogo resume assim: a vida psíquica entra no seu último capítulo não quando o corpo declina, mas quando a mente passa de “O que é que posso tentar a seguir?” para “Isso já não é para mim”. E, muitas vezes, ninguém à volta dá por isso.
Um paciente de 52 anos, a quem chamaremos Mark, chegou à consulta a dizer: “Não estou deprimido, apenas aceitei a realidade”. Tinha deixado a música há dez anos, recusava promoções, já não via os amigos. “Essas coisas são para os jovens. O meu papel agora é aguentar até à reforma”, explicava com calma. Não estava doente. Não chorava. Dizia-se lúcido. Mas tudo, no seu discurso, respirava fim antes do tempo.
A investigação em psicologia do envelhecimento mostra, no entanto, outra coisa: a capacidade de se projectar, de aprender, de construir novas ligações permanece bem viva até muito tarde na existência. O que falha primeiro não é o cérebro; é o imaginário. Quando uma pessoa começa a pensar em termos de “tarde demais”, os comportamentos seguem-se. Tenta menos. Protege-se mais. Evita riscos emocionais. Como se já vivesse num museu da sua própria vida.
O psicólogo que citamos quer ser claro: para ele, a “última etapa” começa quando a pessoa deixa de se ver como alguém em movimento. No dia em que nos descrevemos mais pelo nosso passado do que pelo que estamos a preparar, viramos psicologicamente uma página. Este pensamento resignado não tem nada a ver com sabedoria. É antes uma espécie de fecho interno. De repente, já não perguntamos: “E se…?”. Repetimos: “É o que é”. E o resto da vida desenrola-se como uma releitura, não como um livro ainda em escrita.
Como deixar de pensar como se a sua história já tivesse terminado
O psicólogo propõe um exercício quase simples demais, que dá aos seus pacientes assim que detecta os “tarde demais”, “já não é para mim”, “isso já passou”. Pede-lhes que respondam a uma pergunta muito concreta: “Se a sua vida não estivesse na sua etapa final, que pequena coisa começaria a aprender este mês?”. Não um grande projecto, não uma mudança de carreira. Apenas uma competência, um gesto, uma curiosidade nova.
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Escrever novamente à mão. Pegar na guitarra quinze minutos ao domingo. Aprender três frases em japonês. Telefonar a alguém que admiramos para lhe fazer uma pergunta. Não é o conteúdo que importa, mas o movimento. O simples facto de nos vermos ainda capazes de iniciar alguma coisa quebraria a lógica do “tarde demais”. E é aí que a roda vira, muitas vezes de forma invisível para quem está à volta.
O que bloqueia muita gente, segundo ele, é a crença de que cada novo projecto tem de ser espectacular ou rentável. E então não começam nada. Vêem os outros viver e dizem para si que “perderam o comboio”. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Ninguém se reinventa permanentemente. Mas aqueles que escapam a esta última etapa psíquica antes do tempo têm todos um ponto em comum: guardam um cantinho da vida para algo gratuito, inútil, alegremente não produtivo.
Os erros mais frequentes soam a frases feitas: “Sou demasiado velho para isto”. “Na minha idade, isto não é sério”. “Vão gozar comigo se eu começar agora”. Por baixo destas fórmulas há medo: medo de ser julgado, medo de ser principiante, medo de admitir que ainda nos importamos com alguma coisa. O psicólogo insiste numa nuance: deixar de sonhar alto não é ser maduro. Às vezes é apenas ter sido magoado demais.
Ele incentiva os seus pacientes a reparar, quase como um jogo, sempre que se apanham a pensar: “Na minha idade, eu não posso…” e a completar com um “a menos que…”. “Na minha idade, não posso voltar a estudar… a menos que faça uma aula online só para ver”. Esta pequena expressão reabre uma janela. Não se trata de negar a realidade, nem as limitações bem reais. Trata-se de recusar a narrativa interior que diz que já está tudo decidido.
“A etapa final da vida de uma pessoa raramente começa numa cama de hospital”, confidencia o psicólogo. “Começa num dia como qualquer outro, quando ela decide em silêncio que nunca mais lhe vai acontecer nada verdadeiramente novo.”
Para quem sente que está a escorregar suavemente para esta forma de pensar, ele propõe um mini “kit de reabertura”:
- Anotar uma coisa, mesmo minúscula, que apeteça experimentar nos próximos 30 dias.
- Falar com uma pessoa de outra geração, mais nova ou mais velha, sem dar conselhos, apenas para ouvir.
- Mudar um ritual semanal: outro café, outro caminho, outro horário.
- Contar a alguém um projecto que nunca se ousou formular em voz alta.
- Fazer a si próprio, à noite, esta pergunta: “O que é que me surpreendeu hoje, mesmo que pouco?”
Não são receitas milagrosas. São sinais enviados ao cérebro: “a minha história não acabou”. E, muitas vezes, estes pequenos deslocamentos bastam para adiar consideravelmente a famosa “última etapa psicológica”. Por vezes, fazem-na até recuar ao ponto de se tornar irreconhecível.
Viver com um final em aberto
O psicólogo repete a quem acompanha: uma vida não se decide apenas nos grandes momentos, mas na forma como habitamos os finais provisórios. Uma relação que muda, um trabalho que termina, um corpo que já não acompanha exactamente. Cada uma destas viragens pode tornar-se uma mini “última etapa” ou apenas um capítulo. Tudo depende da frase que escolhemos dizer a nós próprios.
No fundo, a questão central é quase brutal: quando pensa em si, conta sobretudo o que foi, ou o que está a tornar-se? Se a resposta pende sempre para o mesmo lado, o psicólogo vê nisso um sinal. Não é um diagnóstico, nem uma condenação. É um convite a verificar se não fechámos a porta um pouco cedo demais, por cansaço ou desânimo.
O que mais abala os pacientes, conta ele, não é a consciência de que já se pensavam “no fim da vida” quando ainda têm vinte ou trinta anos pela frente. É aperceberem-se de até que ponto os outros ainda os viam como vivos, interessantes, capazes de evoluir. Como se duas versões de si mesmos coexistissem: a que está na cabeça deles, no último capítulo, e a que está no olhar dos outros, ainda a meio do livro.
Talvez a verdadeira viragem esteja aí: na escolha diária entre viver-se como um resumo ou como uma versão em rascunho. Nenhum psicólogo, por mais categórico que seja, pode decidir por nós quando começa realmente a nossa “última etapa”. O que o seu olhar permite, em contrapartida, é colocar uma pergunta que fica durante muito tempo num canto da cabeça: e se ainda não fosse o fim?
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| A “última etapa” é mental, não biológica | Começa quando nos contamos que tudo o que importa já ficou para trás | Permite identificar esta viragem em si ou em alguém próximo |
| As frases “tarde demais” são sinais de alerta | “Sou demasiado velho para isto”, “Agora sou assim” assinalam um fecho em relação ao futuro | Ajuda a reconhecer um modo de pensar que cristaliza a vida |
| Pequenas acções reabrem o futuro | Aprender algo, mudar um ritual, falar com outra geração | Oferece alavancas simples para não entrar cedo demais na última etapa psíquica |
FAQ:
- O que é que o psicólogo quer dizer exactamente com “etapa final da vida”?
Não está a falar de prognóstico médico nem de idade, mas de uma mudança mental: o momento em que a pessoa deixa de se ver como alguém que ainda pode começar coisas novas.- Esta “etapa final” pode começar nos 30 ou 40 anos?
Sim. Algumas pessoas começam muito cedo a pensar “já é tarde para mim”, muitas vezes depois de grandes desilusões, burnout ou falhanços repetidos.- É errado aceitar que alguns sonhos não vão acontecer?
Não. Aceitar pode ser saudável. O risco surge quando a aceitação se transforma numa regra geral de que nada de novo ou significativo pode voltar a acontecer.- Como posso ajudar alguém de quem gosto que fala como se a vida já tivesse acabado?
Em vez de discutir, faça perguntas suaves sobre o que essa pessoa tentaria “se a idade ou as circunstâncias não fossem um problema” e proponha passos muito pequenos e concretos.- A terapia pode mesmo inverter esta forma de pensar?
A terapia pode ajudar muito, sobretudo a explorar os medos e o luto por trás da narrativa do “tarde demais”, e a reconstruir um sentido de futuro, mesmo que modesto.
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